terça-feira, 13 de maio de 2008

Educação Pelas Lentes de Quem Educa III

A qual das acepções da palavra educação se quer abordar neste espaço? Há muitas possibilidades de abordagem desse tema, dependendo do que se pretende com ele. Pode-se afirmar, por exemplo, que educar é o ato ou o efeito de educar-se, e neste caso, o processo é um auto-exercício do próprio objeto da educação, a saber, o educando. Por isso, se pode afirmar que ninguém poderá motivar o educando, salvo se ele mesmo quiser ser educável. Quando Esther Gross foi secretária de educação no Rio Grande do Sul, afirmou em uma entrevista na rádio Jovem Pan, que a educação formal não é para todos. Isto pareceu um contra-senso, entretanto, ela tinha toda razão, pois há pessoas que não são educáveis do ponto de vista formal. Estas pessoas até poderão se dar muito bem em termos de sucesso profissional e financeiro pela vida. Não necessitando, obrigatoriamente, de um diploma para tanto. Eles têm tino para negócios, para atividades práticas, mas não para estudos exaustivos.
Também se diz da educação como o processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social. Neste sentido, pode-se falar em educação da juventude, educação de adultos, educação sexual, educação artística e educação de excepcionais. É um sentido mais abrangente e duradouro da educação.
Educação ainda pode se referir aos conhecimentos ou às aptidões resultantes de um processo, ou mesmo do preparo para a vida. Neste caso pode-se falar dos autodidatas, isto é, aqueles que alcançam conhecimentos por esforço pessoal. Educação é também o acervo científico e os métodos empregados na obtenção de tais resultados. Tais resultados são entendidos como a instrução, o ensino, como alguém que é uma autoridade em educação. Educar pode ser, ainda, uma mera referência ao nível, ou tipo de ensino disponiblizado em uma sociedade, tal como, ensino primário, secundário, ou superior.
Educação pode ser o aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas, ou mesmo, o conhecimento e prática dos usos da sociedade, civilidade, delicadeza, polidez, cortesia. Neste caso se diz que uma pessoa é muito educada.
Finalmente admite-se como educação a capacidade da arte de ensinar e adestrar animais, ou o adestramento de um cão, por exemplo. Ainda se aplica a arte de cultivar as plantas e de as fazer reproduzir nas melhores condições possíveis para se auferirem delas bons resultados.
O fato é que, é necessário aprender a apreender para, então, ensinar. Grande parte dos cursos de formação de docentes é inadequada, precisamente, porque leva o aprendiz de educação à uma enfadonha leitura teórica de Jean Piaget, Paulo Freire, Lev Vygotsky, Henri Wallon, entre outros, mas isto não o prepara para a realidade cotidiana na sala de aula, arena do processo ensino-aprendizagem. É nesse palco que emergem todas as experiências vivenciadas e vividas pelo educando. Ali os atores educadores se deparam com dilemas oriundos dos lares desestruturados, das famílias com problemas de desequilíbrios psicológicos, financeiros, morais e, sobretudo, educacionais. Chega-se a um ponto que é necessário à escola educar os pais, para, só então educar os filhos.
64% dos professores entrevistados na pesquisa já mencionada afirmam que tiveram uma formação inicial excelente ou muito boa. Também, 49% admitem que a formação acadêmica pouco os preparou para a sala de aula. Mostram que há uma constante disparidade entre a teoria apreendida e o desempenho real das funções regenciais em aula. Ainda 80% participou de cursos de formação continuada e 90% se declaram satisfeitos com a sua própria didática.
Bem, diante deste quadro pitoresco, para não dizer dantesco, alguém está equivocado neste pais.

Educação Pelas Lentes de Quem Educa II

São recorrentes os modismos dos que conduzem a política educacional no Brasil. Cada ministro que sucede o anterior apresenta projetos mirabolantes com títulos pomposos, porém de pequena monta no tocante à melhoria real do desempenho. A cada nova avaliação massificada do governo, vê-se o nível de desempenho despencando. O Brasil, hoje perde em qualidade de desempenho até mesmo para alguns países mais pobres do mundo. A questão não está restrita à inteligência dos educandos, pois é ponto passivo que há multiplas formas de inteligências. Também é corrente o fato que todos os seres humanos são, em algum nível ou grau, inteligêntes o suficiente para se despontar como exímio em alguma área do conhecimento. A questão se restringe, todavia, na má qualificação dos professores, na falta de reengenharia dos educadores e da quase ausência de processos continuados e eficazes na ensinagem. Permita-me o neologismo!
É sofrível o nível dos cursos superiores que preparam os futuros professores. Há um acordo tácito entre os estudantes das cátedras de educação, visto que, aqueles necessitam de um diploma para se ingressarem rapidamente em uma profissão, enquanto estas, querem formar o máximo de turmas e aumentar os seus ganhos sem muito invetimento em tecnologias.
A maior fragilidade da base educacional consiste na dificuldade de relação correta entre o educador e o educando, bem com com o ambiente de trabalho e seus equipamentos e pressupostos. Os professores são vistos pela sociedade em geral, e pelos alunos, em particular, como alguém que não estudou e, portanto, resolveu dar aulas. É o famoso, "virou professor"! Os alunos, por sua vez, são vistos por professores que não se acham bem pagos o suficiente para desgastarem suas vidas, como preguiçosos, desinteressados e indisciplinados. De fato cada visão desta pode ser verdadeira, na medida em que não se preza por uma política educacional de qualidade e de resultados efetivos. Tudo é uma questão de ajustamento dos papéis e do cumprimento destes papéis corretamente. Comumente a família do educando é percebida como a origem da maior parte dos males do aluno, não apenas em suas deficiências de aprendizagem, mas sobretudo, em seus dilemas psicológicos, éticos e morais.
É fato em todas as áreas de atividades, que, quando um profissional não consegue desempenhar bem o seu papel, busca-se imediatamente um culpado lá fora. Na escola esta recorrência é mais visível, porque bastam meia dúzia de palavras em uma reunião pedagógica e todos balançam suas cabeças concordantemente de que o problema é o aluno e a sua família. Joga-se para fora dos portões da escola a culpabilidade a fim de se livrar de uma insatisfação e preguiça latentes. Dizem que, quando se repete indefinidamente uma mentira, com o tempo ela passa a ser vista como verdade. Este é um método bolchevista muito praticado em escolas.
Na referida pesquisa do primeiro artigo apontou-se como principais problemas da sala de aula, os seguintes: 77% são devidos à ausência dos pais no acompanhamento dos filhos em termos educacionais. É fato que eles jogam os filhos para dentro dos portões da escola e entrega-lhes absolutamente aos cuidados de diretores, professores e assistentes. Cerca de 70% afirmam que os alunos são desmotivados. Pode até ser mesmo, porque concorrem com a escola muitos atrativos de um lado e a imaturidade do educando, para a realidade da vida do outro lado. Entretanto, os "pensadores" da educação devem estabelecer parâmetros para equacionar esta falha também. Ainda, cerca de 69% atribuem ao insucesso do aprendizado à indisciplina e a falta de atenção dos educandos. Isto é o óbvio ululante, pois na infância e na adolescência, em plena explosão hormonal, em aberta descoberta do sentido da vida e dos acenos mais atraentes da parafernalha oferecida pela sociedade tecnocrata, quem vai dar valor a aula? Quanto mais, quando o que rege a classe é, por definição e por natureza um mal informado, mal humorado e mal educado no sentido de educação formal.
Neste cenário aparecem os burocratas implantados nos gabinetes ministeriais, nos conselhos de educação e nas secretarias de educação pelos amigos políticos. Muitos destes desinformatas sairam da militância como cabos eleitorais para uma confortável poltrona de couro em algum gabinete. Nunca estiveram em uma escola na periferia de uma grande cidade dando aulas. Traçam seus planos mirabolantes, às custas de assessores igualmente desinformados que não passam de intelectualóides de esquerda ou de direita, os quais copiam projetos bons para a Suíça e querem que dêem certo no Brasil.

Educação Pelas Lentes de Quem Educa I

Uma pesquisa recente da revista Nova Escola e do IBOPE realizada entre professores de escolas públicas traz à lume aquilo que se pode perceber pelo senso comum. Persiste um profundo e amargo paradoxo no processo educacional brasileiro: de um lado, professores apaixonados pelo que fazem, do outro lado, uma política educacional perversa e mal gerenciada. Cerca de 53% dos professores entrevistados declararam amor à profissão, mas, apenas 21% estão satisfeitos com o seu desempenho profissional. Apenas 14% acreditam que estão preparando os seus alunos para o futuro. Muitos deles reconhecem a qualidade das séries iniciais como excelente, entretanto, afirmam não estar preparados para o exercício da regência e para enfrentar a dura realidade da sala de aula.
Não há dúvidas de que as lentes de quem concretiza o processo educativo são mais acuradas do que as lentes dos burocratas da educação. Estes, ao contrário daqueles, consomem a maior parte das verbas destinadas ao processo. O fato é que os professores executam uma educação pensada por desinformatas de gabinete, e que, em muitos casos, nunca estiveram efetivamente em uma sala de aula.
As discrepâncias são visíveis, pois 63% dos professores relatam viver em nível significativo de estresse. Isto porque, 48% ressentem de mais segurança contra a violência nas escolas. Ainda, 54% estão descontentes com os benefícios recebidos, 47% com o salário e 47% com a sobreposição de papéis, isto é, a acumulação do papel de professor e intermediário entre o aluno e a sua família. Cerca de 83% têm consciência da importância da profissão, isto é muito, considerando as condições em que desempenham suas funções. Também, 80% já participaram de cursos de capacitação após a formatura, então, a questão não é de incompetência, mas de valorização do profissional.
Conclui-se que educar hoje, no Brasil, é uma tarefa árdua e amarga na medida em que faltam estímulos e respostas, tanto dos que "pensam" a educação, quanto dos que a executam e, especialmente, dos que a recebem. A pesquisa aponta a maneira como os professores brasileiros se relacionam com a profissão que um dia abraçaram por idealismo e como meio de sobrevivência. Neste cenário, o que não faltam são os famigerados "especialistas" cuja especialidade é só por o dedo na ferida, sem lhe minorar a dor. Tornou-se lugar comum neste país, alguém fazer uma revisão de leitura acerca de alguma área de atividade, para depois disparar suas baterias contra quase tudo, com se fossem grandes virtuoses. Estes críticos assim procedem até que algum amigo de algum político os convida para algum cargo. A partir da mudança de eixo de ação, eles igualmente mudam o discurso e passam a defender o que antes condenavam.
Assim, se vai produzindo e reproduzindo uma educação ruim, porque não se consegue estabelecer um ponto de equilíbrio entre a montivação e a prática educativa. Aquela pecha que o magistério é um sacerdócio é, na verdade, um discurso ideológico para enganar o profissional. O sacerdote come, veste, vai ao médico, ao dentista, se diverte, precisa morar, se deslocar, cuida da sua família, precisa se reciclar, ler e reavaliar seus métodos. Fazendo um paralelo, pode-se afirmar que, mesmo no ofício do sacerdócio judaico, os sacerdotes eram sustentados pela população com seus dízimos e ofertas alçadas.
No cristianismo, Paulo, afirmou que quem prega o evangelho deve viver do evangelho. Afinal, até mesmo os relógios trabalham corretamente se a eles for acrescentada uma bateria ou lhes for dada a corda. Esta máxima neotestamentária que de graça recebeste, de graça dai, é apenas no sentido de que não se deve cobrar para anunciar a graça de Deus. Não se vende a graça, pois do contrário ela já não seria graça, mas mercadoria. Entretanto, se paga o tempo de dedicação, pois a pessoa poderia prover os seus meios de vida desempenhando outra função na sociedade.