Uma pesquisa recente da revista Nova Escola e do IBOPE realizada entre professores de escolas públicas traz à lume aquilo que se pode perceber pelo senso comum. Persiste um profundo e amargo paradoxo no processo educacional brasileiro: de um lado, professores apaixonados pelo que fazem, do outro lado, uma política educacional perversa e mal gerenciada. Cerca de 53% dos professores entrevistados declararam amor à profissão, mas, apenas 21% estão satisfeitos com o seu desempenho profissional. Apenas 14% acreditam que estão preparando os seus alunos para o futuro. Muitos deles reconhecem a qualidade das séries iniciais como excelente, entretanto, afirmam não estar preparados para o exercício da regência e para enfrentar a dura realidade da sala de aula.Não há dúvidas de que as lentes de quem concretiza o processo educativo são mais acuradas do que as lentes dos burocratas da educação. Estes, ao contrário daqueles, consomem a maior parte das verbas destinadas ao processo. O fato é que os professores executam uma educação pensada por desinformatas de gabinete, e que, em muitos casos, nunca estiveram efetivamente em uma sala de aula.
As discrepâncias são visíveis, pois 63% dos professores relatam viver em nível significativo de estresse. Isto porque, 48% ressentem de mais segurança contra a violência nas escolas. Ainda, 54% estão descontentes com os benefícios recebidos, 47% com o salário e 47% com a sobreposição de papéis, isto é, a acumulação do papel de professor e intermediário entre o aluno e a sua família. Cerca de 83% têm consciência da importância da profissão, isto é muito, considerando as condições em que desempenham suas funções. Também, 80% já participaram de cursos de capacitação após a formatura, então, a questão não é de incompetência, mas de valorização do profissional.
Conclui-se que educar hoje, no Brasil, é uma tarefa árdua e amarga na medida em que faltam estímulos e respostas, tanto dos que "pensam" a educação, quanto dos que a executam e, especialmente, dos que a recebem. A pesquisa aponta a maneira como os professores brasileiros se relacionam com a profissão que um dia abraçaram por idealismo e como meio de sobrevivência. Neste cenário, o que não faltam são os famigerados "especialistas" cuja especialidade é só por o dedo na ferida, sem lhe minorar a dor. Tornou-se lugar comum neste país, alguém fazer uma revisão de leitura acerca de alguma área de atividade, para depois disparar suas baterias contra quase tudo, com se fossem grandes virtuoses. Estes críticos assim procedem até que algum amigo de algum político os convida para algum cargo. A partir da mudança de eixo de ação, eles igualmente mudam o discurso e passam a defender o que antes condenavam.
Assim, se vai produzindo e reproduzindo uma educação ruim, porque não se consegue estabelecer um ponto de equilíbrio entre a montivação e a prática educativa. Aquela pecha que o magistério é um sacerdócio é, na verdade, um discurso ideológico para enganar o profissional. O sacerdote come, veste, vai ao médico, ao dentista, se diverte, precisa morar, se deslocar, cuida da sua família, precisa se reciclar, ler e reavaliar seus métodos. Fazendo um paralelo, pode-se afirmar que, mesmo no ofício do sacerdócio judaico, os sacerdotes eram sustentados pela população com seus dízimos e ofertas alçadas.
No cristianismo, Paulo, afirmou que quem prega o evangelho deve viver do evangelho. Afinal, até mesmo os relógios trabalham corretamente se a eles for acrescentada uma bateria ou lhes for dada a corda. Esta máxima neotestamentária que de graça recebeste, de graça dai, é apenas no sentido de que não se deve cobrar para anunciar a graça de Deus. Não se vende a graça, pois do contrário ela já não seria graça, mas mercadoria. Entretanto, se paga o tempo de dedicação, pois a pessoa poderia prover os seus meios de vida desempenhando outra função na sociedade.

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